segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Uma mulher linda

Por Luiz Felipe Pondé
Da Ilustrada

Recentemente participei de um debate sobre a trilogia "Cinquenta Tons". Muitas críticas: típico best-seller que identifica um drama universal (o amor) e propõe uma solução "easy" (seja sadomasô light e o casamento virá); a srta. Steele (a heroína) não está a altura de Lady Chatterley (de D.H. Lawrence) nem das irmãs Justine e Juliette (do Marquês de Sade) nem da personagem de "História de O" (de Anne Desclos, sob o pseudônimo Pauline Réage), porque a srta. Steele se vende por um MacBook Pro, enquanto as outras são para valer. Tudo verdade.

O maior pecado de "Cinquenta Tons" é que ele vende uma fantasia: o homem ideal. Christian Grey é rico, bonito, inteligente, viril, experiente. Mas o fato é que as mulheres desejam mesmo homens fortes, viris, sensíveis até a página três, ricos não só de grana. Enfim, "Cinquenta Tons" vende porque fala para todas as mulheres, bobas, ignorantes, cultas ou críticas. Mas, como virou moda mentir, ninguém confessa.

Dias depois do debate, revi um filme idiota americano (como "Cinquenta Tons"), em que um milionário fodão (interpretado por Richard Gere) contrata uma garota de programa (Julia Roberts, ah! Se todas fossem iguais a você, Julia, que maravilha viver...) e acabam se apaixonando. Claro, o filme é "Uma Linda Mulher". A fórmula clara da gata borralheira do sexo que vira a esposa Cinderela.

Mas o longa é muito mais do que isso. Diante da crítica histérica de que é mais um filme machista (que sono...), vale notar que ele faz a pergunta que mata de medo as mulheres: afinal, o que quer o homem numa mulher?

Dirão as apressadas que o homem quer que a mulher traga uma cerveja e venha pelada. Errado: melhor de calcinha e salto alto. Seria a superficialidade masculina o último bastião da ideologia "dominante"? Bastião este que agrada a todas as mulheres porque as acalma: os homens só querem uma bunda!

O filme toca num tema atávico que deixa mesmo as meninas "críticas" de cabelo em pé: seria a garota de programa a mulher ideal?

O personagem de Gere é fodão. Ele sabe o que os fodões sabem: o mundo é repetitivo, e as pessoas são previsíveis. Querem dinheiro, reconhecimento e "serviços", e fazem qualquer coisa para conseguir, embora neguem.

Se, no fundo, todos estão à venda por "um programa" de sucesso, melhor sair com alguém mais honesto: a garota de programa é a mulher menos cara do mundo. Ela "só" quer dinheiro, e isso às vezes é uma bênção. Ela é a mulher ideal porque é a única diante da qual o homem relaxa.

Afinal, o que quer o homem numa mulher? Num dado momento do filme, Gere diz à bela Roberts: "As pessoas são previsíveis, mas você me surpreendeu" (não vou contar detalhes).
Não devemos menosprezar essa fala e o que acontece depois, o apaixonar-se pela garota de programa. Gere sabe o que diz: as pessoas são mesmo previsíveis. Mas hoje a moda é dizer que são todas "únicas".

La Roberts encanta o fodão porque ela não é óbvia, e a mulher óbvia só quer fodões.

Graças a ela, ele rompe o ciclo da desconfiança causada pela obviedade das mulheres, e graças a ele, ela se cansa de ser puta, porque a puta não é uma mulher de verdade.
Os homens sentem que as mulheres querem deles apenas sucesso (em todos os sentidos). Mas hoje virou moda dizer que isso não é verdade. Ficou pior porque continua sendo verdade, mas, quando o cara sente isso, ele deve se sentir um machista porque sabe disso.

O homem quer uma mulher para quem ele não tenha que ser o sr. Grey, mas a mulher não perdoa um homem fraco. A garota de programa perdoa porque "só" quer dinheiro.
A fraqueza masculina aniquila o desejo da mulher. Mas, como essa mulher ideal não existe (assim como o sr. Grey), o ideal acaba ficando colado ao corpo irreal da namorada "paga".

Mesmo sabendo que sr. Grey (um fodão) não existe, as mulheres não suportam homens que não se pareçam com ele, e esta é a verdade suprema de "Cinquenta Tons".

Por fim: uma amiga minha, psicóloga, me disse que muitos dos seus pacientes vêm ao consultório falar de como suas mães (fálicas) destroem seus pais (fracos).
São essas mulheres fálicas, segundo ela, que à noite gemem de solidão sonhando com o sr. Grey.

Óbvio?


sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O monstro Victor Hugo


Por Mario Vargas Llosa
Tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman
Da Revista Cult

Naquele ano de 1950, o inverno, no internato do Colégio Militar Leoncio Prado, de Lima, era úmido e cinza, a rotina embrutecedora e a vida um tanto infeliz. As aventuras de Jean Valjean, a obstinação de sabujo de Javert, a simpatia de Gavroche e o heroísmo de Enjolras apagavam a hostilidade do mundo e transformavam a depressão em entusiasmo nas horas de leitura, roubadas às aulas e à instrução militar, que me transportavam para um universo de extremos incandescentes na desgraça, no amor, na coragem, na alegria, na vileza.
A revolução, a santidade, o sacrifício, o cárcere, o crime, homens super-homens, virgens ou putas, santas ou perversas, uma humanidade atenta ao gesto, à eufonia, à metáfora. Fugir para lá era um grande refúgio: a vida esplêndida da ficção me dava forças para suportar a vida verdadeira. Mas a riqueza da literatura também fazia a realidade real ficar mais pobre.
Quem foi Victor Hugo? Depois de ter passado os dois últimos anos imerso de corpo e alma nos seus livros e em sua época, agora sei que nunca vou saber a resposta.
Jean-Marc Hovasse, o mais meticuloso dos seus biógrafos até o presente – sua biografia ainda está inconclusa –, calculou que um apaixonado bibliógrafo do bardo romântico, lendo catorze horas diárias, levaria uns vinte anos só para percorrer os livros dedicados ao autor de Os Miseráveis que se encontram na Biblioteca Nacional de Paris.
Porque Victor Hugo é, depois de Shakespeare, o autor ocidental que gerou mais estudos literários, análises filológicas, edições críticas, biografias, traduções e adaptações de suas obras nos cinco continentes.
Quanto tempo levaria esse titânico leitor para ler as obras completas do próprio Victor Hugo, incluindo os milhares de cartas, anotações, papéis e rascunhos ainda inéditos que pululam nas bibliotecas públicas e particulares e nos antiquários do mundo? Não menos de dez anos, se essa leitura for sua única e obsessiva dedicação na vida.
A fecundidade do poeta e dramaturgo emblemático do romantismo na França provoca vertigem em quem se debruça nesse universo sem fundo. Sua precocidade foi tão notável quanto sua capacidade de trabalho e a terrível facilidade com que as rimas, as imagens, as antíteses, os achados geniais e as pieguices mais sonoras saíam da sua pena.
Antes de completar quinze anos já havia escrito milhares de versos, uma ópera cômica, o melodrama em prosa Inez de Castro, o rascunho de uma tragédia em cinco atos (em verso), Athélie ou les Scandinaves, o poema épico Le Déluge e esboçado centenas de desenhos. (…)
Dir-se-ia que alguém que produziu toneladas de papel rabiscado de tinta deve ter levado a vida de um monge laborioso e sedentário, confinado durante dias e anos no seu gabinete sem levantar a cabeça da prancheta, onde sua mão incansável fatigava as penas e esvaziava os tinteiros.
Mas não, o extraordinário é que Victor Hugo fez na vida quase tantas coisas quanto sua imaginação e sua palavra fantasiaram, pois teve uma das mais ricas e aventureiras existências do seu tempo, no qual mergulhou de corpo e alma, sempre conseguindo, com um olfato genial, estar no centro da história viva como protagonista ou testemunha privilegiada.
Já sua vida amorosa é tão intensa e variada que causa assombro (e certa inveja, claro). Chegou virgem ao casamento com Adèle Foucher, aos vinte anos, mas exatamente a partir da noite de núpcias começou a recuperar o tempo perdido.
Nos muitos anos que teve pela frente, perpetrou um sem-número de proezas amorosas com uma imparcialidade democrática, pois ia para a cama com damas de todas as condições – de marquesas a criadas, com certa preferência por estas últimas nos seus anos provectos –, e seus biógrafos, esses voyeurs, descobriram que poucas semanas antes de morrer, aos 83 anos, fugiu de casa para fazer amor com uma antiga camareira da sua perene amante, Juliette Drouet.

Espiritismo
Sua comunicação com o além teve uma etapa entre truculenta e cômica, ainda mal-estudada: durante dois anos e meio praticou o espiritismo na sua casa de Marine Terrace, em Jersey, onde passou parte dos seus dezenove anos de exílio.
Ao que parece, quem o iniciou nessas práticas foi uma médium parisiense, Delphine de Girardin, que veio passar uns dias com a família Hugo nessa ilha do Canal. A senhora Girardin comprou uma mesa apropriada – redonda e de três pés – em Saint-Hélier, e a primeira sessão ocorreu na noite de 11 de setembro de 1853. Após uma espera de quarenta e cinco minutos, apareceu Leopoldine, a filha de Victor Hugo falecida num naufrágio.
A partir de então, e até dezembro de 1854, inúmeras sessões se realizaram em Marine Terrace – participavam delas, além do poeta, sua esposa Adèle, seus filhos Charles e Adèle, e amigos ou vizinhos –, durante as quais Victor Hugo teve oportunidade de conversar com Jesus Cristo, Maomé, Josué, Lutero, Shakespeare, Molière, Dante, Aristóteles, Platão, Galileu, Luís XVI, Isaías, Napoleão (o grande) e outras celebridades. (…)
Os espíritos manifestavam a sua presença fazendo os pés da mesa pularem e vibrarem. Uma vez identificada a visita do além, começava o diálogo. As respostas do espírito eram batidinhas que correspondiam às letras do alfabeto (as aparições só falavam francês). Victor Hugo passava horas e horas – às vezes, noites inteiras – transcrevendo os diálogos.
Embora tenham sido publicadas algumas recompilações desses “documentos mediúnicos”, ainda há centenas de páginas inéditas que deveriam figurar com todos os direitos entre as obras do poeta, nem que seja apenas porque todos os espíritos com que ele dialoga concordam de fio a pavio com suas convicções políticas, religiosas e literárias, e compartilham sua desenvoltura retórica e suas manias estilísticas, além de professarem por ele a admiração que sua egolatria exigia.

Pop star
É difícil imaginar hoje a extraordinária popularidade que, no seu tempo, Victor Hugo chegou a ter em todo o mundo ocidental, e fora dele. (…) Seus romances, sobretudo Notre-Dame de Paris e, mais tarde, Os Miseráveis, multiplicaram de maneira geométrica o número dos seus leitores, ultrapassaram o âmbito francês e invadiram outras línguas, nas quais em pouco tempo Quasímodo e Jean Valjean ficaram tão famosos quanto na França.
Tanto quanto o seu prestígio literário, sua ativa participação política, como representante no parlamento e como orador, comentarista e polemista da atualidade, foi consolidando o seu prestígio com uma auréola de referência cívica, consciência política e moral da sociedade.
Em seus dezenove anos e pouco de exílio, essa imagem de grande patriarca das letras, da moral pública e da vida cívica adquiriu nuances legendárias.
Seu retorno à França, em 5 de setembro de 1870, com a instauração da República, foi um acontecimento multitudinário, sem precedentes, com a participação de milhares de parisienses que o aclamavam, muitos deles sem terem lido uma linha das suas obras.
Essa popularidade continuaria crescendo sem descanso até o dia da sua morte, e por isso toda a França, toda a Europa, o pranteou. Paris inteira, ou quase, seguiu o seu cortejo fúnebre pelas ruas, numa demonstração de afeto e solidariedade que desde então só certos estadistas ou dirigentes políticos receberam.
Quando morreu, em 1885, Victor Hugo se transformou em algo mais que um grande escritor: era um mito, a personificação da República, um símbolo da sua sociedade e do seu século.

Serviços sexuais
O professor Henri Guillemin decifrou, num livro muito divertido, Hugo et la Sexualité, os cadernos secretos que Victor Hugo escreveu em Jersey e Guernesey durante os seus anos de exílio. Anos que, por razões óbvias, alguns comentaristas batizaram de “os anos das empregadas”.
O grande vate, apesar de ter levado consigo para as ilhas do Canal sua esposa Adèle e sua amante Juliette e de estabelecer esporádicas relações íntimas com damas locais ou de passagem, manteve um constante comércio carnal com as moças do serviço doméstico.
Era um comércio em todos os sentidos da palavra, a começar pelo mercantil. Ele pagava os serviços de acordo com uma tabela estrita. Se a moça só o deixasse olhar os seus peitos, recebia uns poucos centavos. Caso se despisse totalmente, mas o poeta não pudesse tocá-la, cinquenta centavos. Se pudesse acariciá-la sem chegar a passar daí, um franco. Quando passava desses limites, a retribuição podia chegar a um franco e meio e vez por outra, numa tarde pródiga, a dois francos!
Quase todas essas anotações das cadernetas secretas estão escritas em espanhol para disfarçar as pistas. O espanhol, idioma da transgressão, do proibido e do pecado, quem diria, do grande romântico. Alguns exemplos: “E. G. Esta manhã. Tudo, tudo”, “Mlle. Rosiers. Pernas”, “Marianne. A primeira vez”, “Ferman Bay. Toda. 1fr.25”, “Visto muito. Conquistado tudo. Osculum” etc.
Será que agem mal os biógrafos explorando estas intimidades sórdidas e baixando o deus olímpico do seu pedestal? Agem bem. Assim o humanizam e o trazem para a altura do comum dos mortais, a massa com que também é feita a carne do gênio.
Victor Hugo foi um gênio, não em todas, mas em algumas das obras que escreveu, como Notre-Dame de Paris, Cromwell e principalmente Os Miseráveis, uma das mais ambiciosas empreitadas literárias do século XIX, um século de grandes deicidas, como Tolstói, Dickens, Melville e Balzac.
Mas também foi vaidoso e piegas, e boa parte do muito que escreveu é hoje palavra morta, literatura circunstancial. (André Breton elogiou-o com maldade, dizendo dele: “Era surrealista quando não era con [um idiota].” Mas a definição mais bonita a seu respeito foi Jean Cocteau quem fez: “Victor Hugo era um doido que achava que era Victor Hugo.”)
Na casa da Place des Vosges onde morou, há um museu dedicado à sua memória onde se pode ver numa vitrine um envelope dirigido a ele que trazia como endereço: “Mr. Victor Hugo. Océan.” E ele já era tão famoso que a carta chegou às suas mãos.
A ideia de oceano, aliás, lhe cai como uma luva. É isto o que foi: um mar imenso, às vezes quieto e outras agitado por tempestades assustadoras, um oceano habitado por lindos bandos de golfinhos, por crustáceos sórdidos e por elétricas enguias, um infinito mare magnum de águas agitadas onde convivem o melhor e o pior – o mais belo e o mais feio – das criações humanas.

O texto acima foi extraído do livro A Tentação do Impossível – Victor Hugo e Os Miseráveis, de Mario Vargas Llosa.


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A aparência da rebeldia

Trayvon Martin foi alvejado pelo segurança George Zimmerman, na noite de 26 de fevereiro de 2012


Por Contardo Calligaris
Da Ilustrada


Democratas e republicanos disputam a Prefeitura de Nova York. Um tema da campanha é a lei que autoriza os policiais a "parar e revistar" os que eles acharem "suspeitos".

Carregar armas e drogas em Nova York se tornou difícil, mas acontece que a maioria dos indivíduos parados e revistados são jovens negros e hispânicos, moradores de bairros pobres e com a aparência de malandro --touca preta na cabeça, calças "baggy" quatro dedos abaixo do elástico das cuecas, etc. Em uma blitz brasileira, os critérios seriam diferentes, mas os selecionados seriam parecidos.

A polícia de Nova York, acusada de basear suas "suspeitas" em um perfil racial e social, responde que seria ineficiente ignorar as estatísticas e revistar senhores de terno Paul Stuart.

No ano passado, na Flórida, Trayvon Martin, negro, 17 anos, foi morto com um tiro por George Zimmerman, 29, que fazia parte da ronda noturna de segurança do bairro. Segundo Zimmerman, Trayvon, interpelado como suspeito, reagiu; Zimmerman se sentiu ameaçado e atirou. No fim de agosto de 2013, Zimmerman foi inocentado da acusação de homicídio. O veredito indignou a comunidade afro-americana.

Em 13 de setembro, Bill O'Reilly, entrevistador do canal Fox, ao conversar com Cornel West (negro, professor e militante dos direitos da minoria afro-americana), disse que Trayvon Martin não morreu por causa da cor da sua pele: "Se Trayvon Martin estivesse usando um paletó e uma gravata como você esta noite, sr. West, eu não acredito que George Zimmerman teria achado ele problemático. Mas Trayvon estava usando um moletom com capuz, e ele tinha uma certa aparência, e essa aparência é a dos membros de gangues. E por isso ele chamou a atenção."

Quer dizer que poderíamos (deveríamos?) ser parados, revistados e, por que não, mortos a tiros se usássemos moletom com capuz? É uma estupidez: obviamente, os gostos vestimentários de Trayvon não justificam a reação de Zimmerman. Mas uma pergunta fica: Trayvon não era membro de gangue alguma, por que, então, ele estava tentando se parecer com um "gangsta"?

Nenhuma crítica: todos devem ter a liberdade de ir e vir vestidos como quiserem. Mas por que tantos jovens de classe média (baixa e alta) acham mais interessante se parecer com malandros, traficantes e outros delinquentes do que, por exemplo, com os estudantes que eles são? Nos EUA, aliás, a estética do "gangsta" é a estética quase universal do estudante de escola pública.

Alguém dirá que, para os menos favorecidos, a paródia da delinquência é um jeito de impor respeito (inspirando medo, por exemplo). Mas o fenômeno é interclassista, há tempos.

Quando meu filho começou o colégio em Scarsdale, um subúrbio de Nova York rico e por isso com boas escolas públicas, ele se preparou para o frio comprando um anoraque preto com um desenho branco que evocava a marca de uma gangue. Em Scarsdale, isso o identificava imediatamente como um cara problemático; era o que ele queria: poucos meses depois, ele adotou o sotaque de um outro subúrbio, próximo do nosso e famoso por suas gangues, e seu apelido na escola passou a ser "Bronx".

Meu filho e Trayvon, como milhões de outros adolescentes mundo afora, não inventaram nada: eles apenas enxergaram o extraordinário glamour do crime e da marginalidade em nossa cultura, ou seja, descobriram que nós, adultos (consciente ou inconscientemente), idealizamos a criminalidade.

Concluíram que seria cool eles adotarem a aparência, a música, os gestos, a caminhada dos membros de uma gangue. Imaginaram que isso pudesse lhes valer nosso respeito, se não nossa admiração.

Os jovens têm razão. Os adultos modernos carregam consigo um resto de adolescência mal resolvida, como se, para eles chegarem a ser adultos mesmo, ainda lhes faltasse um gesto de rebeldia que se esqueceram de fazer na juventude.

Essa adolescência, desperdiçada por falta de coragem, volta como farsa na vida do adulto: ninguém tem coragem de nada, sequer de quebrar a rotina, mas todos procuram a aparência da rebeldia. Não fiz nada do que eu queria ou esperava, mas amanhã vou tatuar uma estrelinha na bunda.

Em suma, a rebeldia é uma aparência nos adolescentes porque também ficou como aparência em nós. E mais isso: os adolescentes camuflados de "gangstas" nos assustam como nos assustam os nossos próprios sonhos frustrados e já vencidos.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

‘A ideia de felicidade ocidental, baseada no individualismo, falhou’



Por Sônia Racy, com entrevista de Marialia Neustein

Do Substantivo Plural

Há 20 anos, Roman Krznaric se inscreveu para um curso de culinária na Bahia; mas, como não conseguiu uma bolsa de estudos, declinou a viagem. Hoje, o filósofo australiano, um dos fundadores da The School of Life, na Inglaterra, finalmente conhecerá o Brasil. Abriu uma exceção para viajar de avião – ele se preocupa com as emissões de carbono – e virá ao País para uma palestra sobre trabalho, dia 22, no Teatro Augusta.


Escritor do best seller Como Encontrar o Trabalho da Sua Vida, o filósofo continua interessado em culinária, mas se dedica a incentivar o que chama de “questionamentos sobre a vida”. E a vida laboral, segundo o escritor, é uma das questões que causam mais insatisfação e inquietação no mundo contemporâneo. “Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a enxergar o trabalho como algo para além da sobrevivência. É uma ocupação que pode fazer você se sentir preenchido”, conta. A saída para a insatisfação, explica, tem algumas alternativas: aplicar seus valores pessoais no trabalho; procurar um emprego que faça diferença no mundo; e usar seus talentos e habilidades; entre outras. “Uma das maiores razões de satisfação no trabalho não é dinheiro, mas autonomia”, diz.

Além de aulas e conferências pelo mundo, o australiano toca, paralelamente, um projeto definido por ele como “a grande ambição de sua vida”: a criação de um Museu da Empatia. “Trata-se de um lugar onde você poderá entrar e conversar com pessoas que não conhece. Assim como emprestamos livros de uma biblioteca, será possível emprestar pessoas para uma conversa”, explica. O projeto não é de todo utópico. Segundo o filósofo, depois de um vídeo explicando seu conceito de empatia, com 500 mil visualizações, sua caixa de e-mail recebe, pelo menos, uma mensagem por dia de pessoas do mundo inteiro se propondo a ajudar na criação do museu.

É por meio dessa troca e da disseminação desse conceito de empatia que o filósofo acredita ser possível fazer uma revolução: “As pessoas acham que a paz e as revoluções são construções de acordos políticos. Mas acredito que é possível que isso seja feito nas raízes das relações humanas. Desmontando ignorâncias e preconceitos”, diz.

A seguir, os melhores momentos da entrevista.

No seu livro, o senhor fala que 60% das pessoas estão insatisfeitas com a vida profissional. Por que esse desconforto crescente?

Parte dessa insatisfação vem do fato de que, nos últimos 20 ou 30 anos, houve um grande crescimento de expectativa com relação ao trabalho. Antes disso, poucos se questionavam sobre seus empregos. Hoje, pessoas de todas as classes sociais começam a ver o trabalho como algo para além da sobrevivência. Uma ocupação pode fazer você se sentir preenchido. De taxistas a investidores de banco, médicos, faxineiras… todos procuram por mais significado no trabalho. Nasceu o conceito de que trabalho pode ser um lugar para se aplicar os talentos, as paixões, os valores.

Como essa mudança ocorreu?

À medida que as necessidades básicas são alcançadas, como casa, comida, educação, as pessoas buscam mais propósitos na vida. E, claro, hoje em dia há mais profissões. Na Europa do século passado, se você quisesse trabalhar com algo que envolvesse suas visões políticas e sociais, existiam poucas possibilidades. Atualmente, há um enorme mercado de trabalho para isso, como ONGs, órgãos de meio ambiente, sociais, em que as pessoas podem sentir que estão fazendo a diferença diariamente. Isso é algo novo. Ter um trabalho onde me sinto valioso e cheio de significados.

O senhor não acha que essa tendência contemporânea de que o emprego tem de ter alguma função social pode criar uma certa culpa coletiva?A maioria das pessoas não trabalha com algo que faz diferença para o mundo.

Sim. Nossos valores são grandes motivadores para o trabalho e para a satisfação laboral. E sim, existe uma culpa de quem pensa “se eu não estou trabalhando com meninos de rua, então sou uma pessoa ruim”. Entretanto, há outras maneiras de encontrar satisfação no trabalho. Uma delas é essa: aplicar seus valores pessoais na prática. Outra é usar seus talentos – sendo um artista ou um jogador de futebol, você não está necessariamente mudando o mundo, mas sua satisfação virá do uso de suas habilidades e paixões. Para mim, o maior problema não é a culpa, mas o arrependimento. É a sensação de chegar ao fim da vida e saber que não fez o que gostaria realmente de ter feito.

O que acha da corrente que defende que as pessoas trabalhem em casa, sozinhas?

Isso é um tópico contemporâneo muito importante. Nos últimos meses, especialmente nos EUA, as empresas não estão deixando seus funcionários trabalharem de casa. O exemplo mais clássico é a nova chefe executiva do Yahoo, Marissa Mayer, que há alguns meses não permite que seus funcionários trabalhem de casa. Isso é trágico. Uma das revoluções modernas laborais, no mundo ocidental, é a ideia de trabalhar de casa.

Por quê?

Uma das razões apontadas pela maioria das pessoas que são felizes no trabalho não diz respeito à remuneração, mas à autonomia. É o senso de liberdade, o poder de decisão sobre o próprio trabalho, que cria satisfação. Mesmo que não seja o emprego dos sonhos. Trabalhar de casa é uma dessas possibilidades. Controlar o próprio horário, a disciplina.

Recentemente, um estagiário se suicidou na Inglaterra, depois de trabalhar 72 horas seguidas. O que acha da cultura que incentiva trabalhar demais?

Muitas empresas fazem o culto do “overwork”, em que trabalhar muito, além da conta, é valorizado. Especialmente em bancos e consultorias. Na Inglaterra, um milhão de pessoas afirmam ser viciadas no trabalho. Ou seja, trabalham mais do que precisariam. A ideia de “work adiction” é um grande problema. O Japão é um caso clássico. Muitas pessoas cometem suicídio ou sofrem de ataque do coração, depois de trabalhar demais. Existe, inclusive, uma palavra no dicionário japonês para “morrer de tanto trabalhar”. Espero que isso seja uma mensagem para indivíduos e para essas empresas.

No livro, o senhor afirma que encontrar o “trabalho da vida” é como encontrar o amor perfeito.

Isso aprendi com uma mulher que, aos 30, pediu demissão e testou 30 profissões diferentes durante um ano. E ela me disse, no fim desse processo, que encontrar o emprego perfeito é como encontrar um amor perfeito. Você pode fazer uma lista com qualidades que gostaria num parceiro e, no fim, se apaixonar por um que não tenha nenhuma delas. Trabalho é isso. Empregos inesperados podem ser surpreendentemente bons. Por isso, experimentar é importante. Para se dar chance de descobrir novas paixões e talentos. O contrário também acontece.

Como?

Eu, por exemplo, trabalhei como jardineiro em um grande jardim público. O salário era ruim, mas achei que seria fantástico, porque estaria perto da natureza, fazendo algo para o público. No fim, trabalhava o dia inteiro, com um esforço físico enorme e as pessoas nem me notavam. Era invisível. Todos nós precisamos de respeito e sentir que nosso trabalho é válido.

O senhor acredita que o aspecto financeiro não provoca satisfação no emprego. No entanto, existe uma questão social, especialmente nos países em desenvolvimento, como o Brasil. 

Sim, o dinheiro importa. Se você tem de ter dois empregos para alimentar a família, claro que não há tempo para ficar experimentando ser um professor de ioga, por exemplo. Nesses casos, a pergunta é: como posso fazer com que meu trabalho seja mais prazeroso?

Crê que as sociedades contemporâneas continuam incentivando o sucesso por meio das conquistas individuais?

Perseguir o interesse próprio foi a grande propaganda do último século. Entretanto, ser humano não é apenas seguir os desejos individuais. A ideia de felicidade ocidental falhou. A introspecção, o interesse próprio, perseguir valores que não envolvam o coletivo… Temos a tendência a sentir compaixão uns pelos outros. Somos criaturas empáticas. Há estudos que mostram que compaixão dá prazer. Somos também coletivos. Formamos comunidades de todos os tipos, o tempo inteiro. As pessoas estão, cada vez mais, querendo fazer parte de algo maior do que elas mesmas.

O senhor tem a ideia de criar um Museu da Empatia. O que é esse projeto?

É a maior ambição da minha vida. Estamos em desenvolvimento ainda. Trata-se de um lugar onde você pode entrar e conversar com pessoas que não conhece. Fazer um “laboratório humano”. Assim como você empresta livros de uma biblioteca, será possível “emprestar pessoas” para uma conversa. Nesse processo também quero criar uma plataforma online, em que será possível “baixar” exposições.

Como?

Você poderá estar em São Paulo e fazer parte do Museu da Empatia, dividindo histórias de como, por exemplo, você faz uma “conversa-refeição” – que é um conceito criado por nós na The School of Life. “Conversa-refeição” nada mais é do que estranhos que se sentam a uma mesa e, no lugar de um menu gastronômico, recebem um cardápio de ideais. Com questões sobre a vida, do tipo: “De que maneira o amor mudou a sua história?”, “Como ser mais corajoso?” ou “Como ter mais satisfação no trabalho”. Meu objetivo é que as pessoas possam baixar esses menus, com instruções para fazer isso em suas comunidades.

O senhor diz que a “empatia”, no sentido de compaixão, é algo capaz de criar uma revolução. Poderia explicar?

A ideia de empatia é, para mim, o ato de “calçar os sapatos de outra pessoa”. Olhar o mundo pela visão do outro. E, normalmente, quando pensamos nessas coisas, sempre consideramos um relacionamento somente entre duas pessoas. Entretanto, se olharmos a história, em todo o mundo, vemos que movimentos de empatia coletiva tiveram momentos de grande êxito. Em outros, sofreram um colapso e desapareceram, como no Holocausto e no genocídio de Ruanda. As pessoas podem agir juntas. Fazendo esse exercício de se colocar no lugar do outro, é possível, sim, mudar o mundo.

Tem um exemplo de um desses momentos?

Na Europa e nos EUA, no século 18, quando houve um grande movimento contra a escravidão. Foi disseminada uma grande reflexão sobre o que era ser escravo. De tempos em tempos, surgem pessoas que se organizam para desafiar atitudes de injustiça. E muitas dessas pessoas são motivadas pela empatia. Hoje, no Oriente Médio, há muitas iniciativas para criar paz entre palestinos e israelenses. As pessoas acham que a paz e as revoluções são construções de acordos políticos. Mas acredito que é possível que isso seja feito nas raízes das relações humanas. Desmontando ignorâncias e preconceitos. Há um enorme potencial no diálogo para comandar mudanças profundas nas sociedades.

Como nutrir esse sentimento em épocas de extremismos?

Nutrir empatia em um local cheio de preconceitos é difícil. A saída para isso é alimentar a curiosidade pelo outro. Nós não conversamos com quem não conhecemos. Esse seria um belo exercício de sensibilização. Ficamos muito tempo com pessoas que são como nós.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Uma voz contra a barbárie




Por Jerônimo Teixeira
Do Observe Bem

Muito já se comentou sobre a aparente contradição entre o maravilhoso legado da cultura alemã e a torpeza do nazismo. Como pôde a terra de Kant, Goethe, Beethoven e tantos outros luminares da filosofia, da literatura e da música originar a negação mais cabal do humanismo e da razão? Enquanto Hitler devastava a Europa, o escritor Thomas Mann (1875-1955), de seu exílio nos Estados Unidos, tentava desesperadamente dissociar as altas realizações do "espírito alemão" dos monstruosos crimes cometidos pelo nacional-socialismo. A Alemanha nazista, dizia ele, "não pode mais ser nem alemã". Essa defesa da essência germânica foi expressa no terceiro dos 58 discursos que o autor de A Montanha Mágica transmitiu, pela rádio BBC de Londres, a seus compatriotas – discursos reunidos em Ouvintes Alemães! (tradução de Antonio Carlos dos Santos e Renato Zwick; 224 páginas). À parte o estilo elegante e a argumentação cristalina do maior escritor alemão do século XX, a beleza dessas exortações encontra-se no seu esforço entre desiludido e heroico de falar ao que restaria de racionalidade sob a sombra da suástica.

Os discursos de Mann começaram a ser transmitidos em 1940 e seguiram, com algumas interrupções, até o fim da guerra, em 1945. Inicialmente, o autor telegrafava os textos para Londres, onde um funcionário da BBC que falava alemão fazia a leitura. A partir de março de 1941, o próprio Mann fazia a leitura em um estúdio americano e a gravação era então transmitida por telefone para Londres, para ser levada ao ar. Mann comentava os acontecimentos mais recentes da guerra – discursos dos líderes aliados ou dos chefes nazistas, bombardeios, deportações de judeus. No conjunto, suas falas radiofônicas documentam como a guerra na Europa era percebida nos Estados Unidos. Pode-se observar, por exemplo, a gradual tomada de consciência das verdadeiras dimensões do holocausto – de ocasionais menções a execuções de judeus, em 1942, à descoberta da matança industrial em campos de concentração como Auschwitz em 1945.

A progressão dos pontos de vista do próprio Mann é ainda mais interessante. Em suas primeiras transmissões, ele apela para o suposto desejo de paz de seus compatriotas e diz que os próprios alemães deveriam ser contados entre os "povos oprimidos" da Europa. A Alemanha era uma espécie de vítima ingênua da canalha nazista que ocupara seu governo. Mais para o fim da guerra, quando a derrota do nazismo se delineava no horizonte, os discursos chamam os alemães a assumir a responsabilidade pelos crimes que cometeram, a única chance, argumentava o Nobel de Literatura de 1929, de encontrarem seu lugar na "nova ordem" democrática que se instalaria após a queda de Hitler e seus asseclas.

Ainda na Alemanha, o próprio Mann vivera um período de nacionalismo exaltado, muito próximo das ilusões de grandeza que alimentariam a ascensão do nazismo. Durante a I Guerra Mundial, chegou a romper com o irmão mais velho, o também escritor Heinrich, porque este se posicionava contra o belicismo germânico. No entreguerras, porém, Thomas Mann foi gradualmente abandonando seu patriotismo autoritário para abraçar os princípios democráticos da claudicante República de Weimar. Em 1929, alarmado com o crescimento dos nazistas, Mann criticava o triunfo das "forças das trevas" e da irracionalidade na política de seu país. Teve a sorte de estar na Suíça quando Hitler subiu ao poder, em 1933. Não voltaria mais a residir na Alemanha.

No último discurso de Ouvintes Alemães!, em novembro de 1945, cerca de seis meses depois da capitulação dos nazistas, Mann explica por que não desejava se restabelecer na terra natal. Não achava possível reencontrar o país que deixara em 1933. Tinha o sentimento profundo de que a antiga pátria, dilacerada em diversas zonas de ocupação, não existia mais como unidade. Restava apenas a culpa por seus crimes terríveis: "Tudo o que se chama alemão está incluído na ampla e terrível culpa nacional". Embora pedisse desculpas aos ouvintes por não ser nacionalista, Mann ainda conservava seu orgulho pela herança cultural alemã. Afirmava que manteria, no exílio, a sua "germanidade cosmopolita".

Consciência no exílio

As opiniões que o escritor Thomas Mann gravava nos Estados Unidos e transmitia para a Alemanha, via rádio, durante a II Guerra Mundial


"Com razão, os destruidores da Europa e os violadores de todos os direitos dos povos veem em Roosevelt seu mais poderoso adversário. Ele é o representante da democracia combativa, o verdadeiro defensor de uma nova ideia de liberdade ligada ao social e um estadista que sempre distinguiu claramente paz de conciliação."
Novembro de 1940


"Chegamos à decisão maníaca de exterminar os judeus europeus. (...) Na França não ocupada, 3 600 judeus foram embarcados para o Leste. Antes mesmo de o comboio da morte se pôr em movimento, 300 pessoas cometeram suicídio. Isso causou indignação no povo francês. E para vocês, alemães, não significa nada?"
Setembro de 1942


"Os ataques aéreos britânicos sobre a terra de Hitler causaram estragos à minha cidade natal. (...) Mas não tenho objeção contra a doutrina de que tudo deve ser pago. Haverá outras pessoas de Lübeck, Hamburgo, Colônia e Düsseldorf que quando ouvem a Royal Air Force sobre sua cabeça desejam a ela todo o sucesso."
Abril de 1942


"Hitler, com sua reles crueldade, com seus constantes rugidos de ódio, seu estropiamento da língua alemã, seu fanatismo medíocre, (...) é a mais repugnante figura sobre a qual jamais caiu a luz da história!"
Fevereiro de 1941


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Liberdade nas nuvens


Por Slavoj Žižek
Da Revista Piauí

Todo mundo se lembra do rosto sorridente do presidente Obama, cheio de esperança e fé, quando ele repetia o slogan da sua primeira campanha: Yes, we can! Sim, podemos nos livrar do cinismo da era Bush e propiciar justiça e bem-estar para o povo americano. Mas como os Estados Unidos continuam promovendo operações secretas e expandindo sua rede de informações, espionando até mesmo os seus aliados, podemos imaginar um protesto no qual os manifestantes gritem para Obama: “Quer dizer que você pode usar drones para matar? Que pode espionar os nossos aliados?” Obama olha para eles e, com um sorriso malévolo, murmura: Yes, we can.

Essa caracterização, no entanto, é simplificada e passa ao largo do que é mais importante. A ameaça à nossa liberdade revelada pelos que denunciaram e espalharam segredos de Estado tem raízes sistêmicas bem mais profundas. Edward Snowden não precisa ser defendido apenas porque as suas denúncias irritaram e constrangeram o serviço secreto americano.

A lição de Snowden tem alcance global. Ele mostrou que não apenas os Estados Unidos, mas todas as grandes (e nem tão grandes) potências – da China à Rússia, da Alemanha a Israel – fazem a mesma coisa, desde que tenham tecnologia para tanto. As revelações de Snowden deram base factual às suspeitas do quanto somos todos controlados e monitorados.

Na verdade, nem Snowden nem o soldado Bradley Manning revelaram nada que já não imaginássemos. Mas uma coisa é saber disso de maneira geral, e outra é depararmos com dados concretos. É um pouco como saber que seu parceiro sexual anda transando por aí: até dá para aceitar a noção abstrata da coisa, mas a dor surge quando se toma conhecimento dos detalhes picantes, quando aparecem as imagens do que o consorte anda fazendo.


As revelações de Snowden e Manning proporcionam uma visão do processo mundial de estreitamento progressivo do espaço para o que Emmanuel Kant chamava de “uso público da razão”. Em seu ensaio “Resposta à pergunta: O que é o esclarecimento?”, Kant opõe o uso público ao uso privado da razão. Para Kant, “privada” é a ordem comunitário-institucional em que vivemos (o Estado, a nação), enquanto “pública” é a universalidade transnacional do exercício da razão de cada um:

O uso público de nossa razão deve a todo momento ser livre, e somente ele pode difundir o Esclarecimento (Aufklärung) entre os homens; o uso privado da razão, por sua vez, deve com bastante frequência ser estreitamente limitado, sem que isso constitua um entrave particular ao progresso do Esclarecimento. Mas entendo por uso público de nossa razão o que fazemos enquanto sábios para o conjunto do público que lê. Denomino de uso privado aquele que se é autorizado a fazer de sua razão em certo posto civil ou em uma função da qual somos encarregados. [Tradução de Luiz Paulo Rouanet.]

A distinção kantiana é pertinente num momento em que a internet e outros novos meios de comunicação se veem divididos entre seu livre uso “público” e seu crescente controle “privado”. Em nossa era de computação com nuvens de armazenamento, não precisamos mais de computadores pessoais de grande potência. Os dados e a informação são fornecidos conforme a necessidade de cada um, e os usuários, por meio dos seus programas de navegação, podem usar ferramentas ou aplicativos estocados na web como se fossem utilitários instalados em seus próprios computadores.

Esse admirável mundo novo, no entanto, é só um dos lados da história. Os usuários acessam programas e arquivos guardados à distância, em salas climatizadas com milhares de computadores. Para administrar uma nuvem, é preciso haver um sistema de monitoramento que controla as suas funções, e esse sistema permanece oculto aos usuários.


Quanto mais o aparelho que tenho nas mãos – um celular – é personalizado, fácil de usar e de funcionamento “transparente”, mais o arranjo todo depende de um trabalho que é feito em outro lugar, num circuito oculto de máquinas. Quanto mais nossa experiência é compartilhada, espontânea e límpida, mais ela é regulada pela rede invisível controlada por organismos estatais e grandes empresas privadas.

Quando seguimos o rastro dos segredos de Estado, chegamos mais cedo ou mais tarde ao ponto fatídico em que as próprias regras legais prescrevendo o que é secreto se tornam secretas. Kant formulou o axioma da lei pública: “Todas as ações relacionadas com o direito de outros homens são injustas se os seus princípios não puderem se tornar públicos.” Uma lei secreta, desconhecida dos indivíduos a ela sujeitos, legitima o despotismo arbitrário daqueles que a aplicam.

O que torna tão perigoso esse controle totalizante das nossas vidas não é o fato de perdermos a nossa privacidade para o Big Brother orwelliano. Não existe organismo governamental capaz de exercer um controle dessas proporções – não por lhe faltarem informações, mas por dispor de informações em excesso.

O volume dos dados é grande demais. A despeito de todos os avançadíssimos programas de detecção de mensagens suspeitas, computadores capazes de registrar bilhões de unidades de informação não têm como interpretá-las e avaliá-las de maneira adequada, o que resulta em erros grotescos como a inclusão de inocentes na lista de terroristas em potencial. Sem sabermos por quê, sem termos feito nada ilegal, podemos ser incluídos numa lista de terroristas sob vigilância.

Há uma lenda sobre o magnata da imprensa William Randolph Hearst. Ele teria perguntado a um dos seus principais editores por que ele não tirava férias, a que tinha direito havia anos, e o editor respondeu: “Se eu sair, fico com medo que se instale o caos e tudo venha abaixo – mas tenho mais medo ainda que, saindo de férias, tudo continue na mais perfeita normalidade, provando que não sou necessário!” Coisa parecida pode ser dita sobre o controle das comunicações pelo Estado. Devemos temer que os organismos do Estado tomem conhecimento de tudo, mas devemos temer mais ainda que fracassem.


É por isso que os que revelam e difundem os abusos desempenham um papel crucial, mantendo acesa a chama da razão “pública”. Julian Assange, Manning e Snowden são nossos novos heróis, exemplos de uma nova ética, adequada à era de controle digitalizado que vivemos. Não se limitam mais a denunciar às autoridades públicas as práticas ilegais de entidades privadas como os bancos, as empresas de petróleo ou os fabricantes de cigarros. Agora, eles denunciam as próprias autoridades públicas quando elas se dedicam ao “uso privado da razão”.

Precisamos de Mannings e Snowdens na China, na Rússia – em toda parte. Alguns Estados são muito mais opressivos que os Estados Unidos. Basta imaginar o que teria acontecido a alguém como Manning num tribunal russo ou chinês. O mais provável é que nem sequer tivesse ocorrido um julgamento público.

Ainda assim, não cabe exagerar a brandura dos Estados Unidos. É verdade que a América não trata seus prisioneiros com a mesma brutalidade da China ou da Rússia. Devido à sua superioridade tecnológica, ela não precisa recorrer a uma abordagem francamente brutal – embora se mostre disposta a recorrer a ela sempre que necessário. Nesse sentido, os Estados Unidos são ainda mais perigosos do que a China porque as suas medidas de controle não são percebidas como ferozes, enquanto a truculência da China é patente.

Não basta jogar um Estado contra outro (como Snowden, que usou a Rússia contra os Estados Unidos). Precisamos de uma rede internacional que organize a proteção daqueles que expõem o controle e dissemine as suas mensagens. Eles são nossos heróis porque provam que, se os ocupantes do poder fazem o que fazem, nós também podemos revidar e deixá-los em pânico.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Umberto Eco: "Informação demais faz mal"

PROFESSOR O pensador e romancista italiano Umberto Eco.  Ele desconfia  da internet (Foto: Eric Fougere/VIP Images/Corbis)

Por Luís Antônio Giron
Da Revista Época

O escritor Umberto Eco vive com a mulher num apartamento duplo nos 2° e 3°andares de um prédio antigo, de frente para o Palácio Sforzesco, o mais vistoso ponto turístico de Milão. É como se Alice Munro morasse defronte à Canadian Tower em Toronto, Haruki Murakami instalasse sua casa no sopé do Monte Fuji ou então Paulo Coelho mantivesse uma mansão na Urca, à sombra do Pão de Açúcar. “Acordo todo dia com a Renascença”, diz Eco. A enorme fortificação diante de suas janelas foi inaugurada pelo duque Francisco Sforza no século XV e está sempre lotada de turistas. O castelo deve também abrir seus portões pela manhã com uma sensação parecida. Diante dele, vive o intelectual e romancista mais famoso da Itália. 

Um dos andares da casa de Eco é dedicado ao escritório e à biblioteca. São quatro salas repletas de livros, divididas por temas e por autores em ordem alfabética. A sala em que trabalha é pequena. Abriga aquilo que ele chama de “ala das ciências banidas”, como ocultismo, sociedades secretas, mesmerismo, esoterismo e bruxaria. Ali estão as fontes principais dos romances de sucesso de Eco: O nome da rosa (1980), O pêndulo de Foucault (1988), A ilha do dia anterior (1994), Baudolino (2000), A misteriosa chama da rainha Loana (2004) e O cemitério de Praga. Publicado em 2010 e lançado com sucesso no Brasil em 2011, o livro provocou polêmica por tratar de forma humorística um assunto sério: o surgimento do antissemitismo na Europa. Por motivos diversos, protestaram a Igreja Católica e o rabino de Roma. A primeira porque Eco satirizava os jesuítas (“São maçons de saia”, diz o personagem principal, o odioso tabelião Simone Simonini). O segundo porque as teorias conspiratórias forjadas no século XIX – como a fraude que ficou conhecida como Os Protocolos dos Sábios do Sião – poderiam gerar uma onda de ódio aos judeus. Desde o início da carreira, em 1962, com o ensaio estético Obra aberta, Eco gosta de provocar esse tipo de reação. Parece não perder o gosto pelo barulho. De muito bom humor, ele conversou conosco durante duas horas sobre a idade, o gênero que inventou – o suspense erudito –, a decadência europeia e seu assunto mais constante nos últimos anos: a morte do livro. É difícil de acreditar, mas aquele que era visto como o maior inimigo da leitura pelo computador está revendo suas posições. Ele diz agora que está até gostando de ler livros pelo iPad, que comprou durante sua última turnê pelos Estados Unidos, em dezembro.

ÉPOCA – Como o senhor se sentiu após completar 80 anos?
Umberto Eco – Bem mais velho! (risos) Vamos nos tornando importantes com a idade, mas não me sinto importante nem velho. Não posso reclamar de rotina. Minha vida é agitada. Ainda mantenho uma cátedra no Departamento de Semiótica e Comunicação da Universidade de Bolonha e continuo orientando doutorandos e pós-doutorandos. Dou muita palestra pelo mundo afora.

O senhor tem sido um dos mais ferrenhos defensores do livro em papel. Sua tese é que o livro não acabará. Mesmo assim, estamos assistindo à popularização dos leitores digitais e tablets. O livro em papel ainda tem sentido?
Sou colecionador de livros. Defendi a sobrevivência do livro ao lado de Jean-Claude Carrière no volume Não contem com o fim do livro. Fizemos isso por motivos estéticos e gnoseológicos (relativo ao conhecimento). O livro ainda é o meio ideal para aprender. Não precisa de eletricidade, e você pode riscar à vontade. Achávamos impossível ler textos no monitor do computador. Mas isso faz dois anos. Em minha viagem pelos Estados Unidos, precisava carregar 20 livros comigo, e meu braço não me ajudava. Por isso, resolvi comprar um iPad. Foi útil na questão do transporte dos volumes. Comecei a ler no aparelho e não achei tão mau. Aliás, achei ótimo. E passei a ler no iPad, você acredita? Pois é. Mesmo assim, acho que os tablets e e-books servem como auxiliares de leitura. São mais para entretenimento que para estudo. Gosto de riscar, anotar e interferir nas páginas de um livro. Isso ainda não é possível fazer num tablet.

Apesar da evolução, o senhor vê a internet como um perigo para o saber?
A internet não seleciona a informação. Há de tudo por lá. A Wikipédia presta um desserviço ao internauta. Outro dia publicaram fofocas a meu respeito, e tive de intervir e corrigir os erros e absurdos. A internet ainda é um mundo selvagem e perigoso. Tudo surge lá sem hierarquia. A imensa quantidade de coisas que circula é pior que a falta de informação. O excesso de informação provoca a amnésia. Informação demais faz mal. Quando não lembramos o que aprendemos, ficamos parecidos com animais. Conhecer é cortar, é selecionar. Vamos tomar como exemplo o ditador e líder romano Júlio César e como os historiadores antigos trataram dele. Todos dizem que foi importante porque alterou a história. Os cronistas romanos só citam sua mulher, Calpúrnia, porque esteve ao lado de César. Nada se sabe sobre a viuvez de Calpúrnia. Se costurou, dedicou-se à educação ou seja lá o que for. Hoje, na internet, Júlio César e Calpúrnia têm a mesma importância. Ora, isso não é conhecimento.

Mas o conhecimento está se tornando mais acessível com a internet. O senhor não acha que o acesso a bancos de dados de instituições confiáveis altera nossa noção de cultura?
Sim, é verdade. Se você sabe quais os sites e bancos de dados são confiáveis, você tem acesso ao conhecimento. Mas veja bem: você e eu somos ricos de conhecimento. Podemos aproveitar melhor a internet do que aquele pobre senhor que está comprando salame na feira aí em frente. Nesse sentido, a televisão era útil para o ignorante, porque selecionava a informação de que ele poderia precisar, ainda que informação idiota. A internet é perigosa para o ignorante porque não filtra nada para ele. Ela só é boa para quem já conhece – e sabe onde está o conhecimento. A longo prazo, o resultado pedagógico será dramático. Veremos multidões de ignorantes usando a internet para as mais variadas bobagens: jogos, bate-papos e busca de notícias irrelevantes.

Há uma solução para o excesso de informação?
Seria preciso criar uma teoria da filtragem. Uma disciplina prática, baseada na experimentação cotidiana com a internet. Fica aí uma sugestão para as universidades: elaborar uma teoria e uma ferramenta de filtragem que funcionem para o bem do conhecimento. Conhecer é filtrar.

O senhor já está pensando num novo romance?
Vamos com calma. Mal publiquei um e você já quer outro... Estou sem tempo para ficção no momento. Na verdade, vou me ocupar agora de minha autobiografia intelectual. Fui convidado por uma instituição americana, a Library of Living Philosophers, para elaborar meu percurso filosófico. Fiquei contente com o convite porque passo a fazer parte de um projeto que inclui John Dewey, Jean-Paul Sartre e Richard Rorty – embora eu não seja filósofo. Desde 1939, o instituto convida um pensador vivo para narrar seu percurso intelectual num livro. O volume traz então ensaios de vários especialistas sobre os diversos aspectos da obra do convidado. No final, o convidado responde às dúvidas e às críticas levantadas. O desafio é sistematizar de uma forma lógica tudo o que já fiz...

Como lidar com tamanha variedade de caminhos?
Estou começando com meu interesse constante, desde o começo da carreira, pela Idade Média e pelos romances de Alessandro Manzoni. Depois vieram a semiótica, a teoria da comunicação, a filosofia da linguagem. E há o lado banido, da teoria ocultista, que sempre me fascinou. Tanto que tenho uma biblioteca só do assunto. Adoro a questão do falso. E foi recolhendo montes de teorias esquisitas que cheguei à ideia de escrever O cemitério de Praga.

Entre essas teorias, destaca-se a mais célebre das falsificações, Os Protocolos dos Sábios do Sião. Por que o senhor se debruçou sobre um documento tão revoltante para fazer ficção?
Eu queria investigar como os europeus civilizados se esforçaram em construir inimigos invisíveis no século XIX. E o inimigo sempre figura como uma espécie de monstro: tem de ser repugnante, feio e malcheiroso. De alguma forma, o que causa repulsa no inimigo é algo que faz parte de nós. Foi essa ambivalência que persegui em O cemitério de Praga. Nada mais exemplar que a elaboração das teorias antissemitas, que viriam a desembocar no nazismo do século XX. Em pesquisas, em arquivos e na internet, constatei que o antissemitismo tem origem religiosa, deriva para o discurso de esquerda e, finalmente, dá uma guinada à direita para se tornar a prioridade da ideologia nacional-socialista. Começou na Idade Média a partir de uma visão cristã e religiosa. Os judeus eram estigmatizados como os assassinos de Jesus. Essa visão chegou ao ápice com Lutero. Ele pregava que os judeus fossem banidos. Os jesuítas também tiveram seu papel. No século XIX, os judeus, aparentemente integrados à Europa, começaram a ser satanizados por sua riqueza. A família de banqueiros Rothschild, estabelecida em Paris, virou um alvo do rancor social e dos pregadores socialistas. Descobri os textos de Léo Taxil, discípulo do socialista utópico Fourier. Ele inaugurou uma série de teorias sobre a conspiração judaica e capitalista internacional que resultaria em Os Protocolos dos Sábios do Sião, texto forjado em 1897 pela polícia secreta do czar Nicolau II.

O anti-herói de O cemitério de Praga, Simone Simonini, é antissemita, anticlerical, anticapitalista e anticomunista. Como surgiu em sua mente alguém tão abominável?
Os críticos disseram que Simonini é o personagem mais horroroso da literatura de todos os tempos, e devo concordar com eles. Ele também é muito divertido. Seus excessos estão ali para provocar riso e revolta. No romance, Simonini é a única figura fictícia. Guarda todos os preconceitos e fantasias sobre um inimigo que jamais conhece. E se desdobra em várias personalidades: durante o dia, atua como tabelião falsificador de documentos; à noite, traveste-se em falso padre jesuíta e sai atrás de aventuras sinistras. Acaba virando joguete dos monarquistas, que se opõem à unificação da Itália, e, por fim, dos russos. Imaginei Simonini como um dos autores de Os Protocolos dos Sábios do Sião.

A falsificação sobre falsificações permitida pela ficção tornou o livro controverso. O senhor gosta de lidar com polêmicas?
A recepção tem sido positiva. O livro tem feito sucesso sem precisar de polêmicas. Quando foi lançado na Itália, gerou alguma discussão. O L’Osservatore Romano, do Vaticano, publicou um artigo condenando os ataques do livro aos jesuítas. O rabino de Roma leu O cemitério de Praga e afirmou que as teorias contidas no livro poderiam se popularizar de novo a partir da obra. Disse a ele que não havia tal perigo. Ao contrário, se Simonini serve para algo, é para provocar nossa indignação.
Faz todo sentido escrever ficção. Não vejo como fazer hoje narrativa experimental, como James Joyce fez com Finnegans wake, para mim a fronteira final da experimentação. Houve um recuo para a narrativa linear e clássica. Comecei a escrever ficção nesse contexto de restauração da “narratividade”, chamado pós-modernismo. Sou considerado um autor pós-moderno – e concordo com isso. Vasculho as formas e os artifícios do romance tradicional. O romance é a realização maior da “narratividade”. Ela abriga o mito, base de nossa cultura. Contar uma história que emocione e transforme quem a absorve é algo que se passa com a mãe e seu filho, o romancista e seu leitor, o cineasta e seu espectador. A força da narrativa é mais eficaz que qualquer tecnologia.

Além de falsário, Simonini é gourmet. Ele enumera com volúpia listas de receitas. O senhor gosta de gastronomia?
Sou McDonald’s! Nunca me incomodei com comida. Pesquisei receitas antigas para causar repugnância no leitor. A gastronomia é um dado negativo na composição do personagem. Quando Simonini discorre sobre pratos esquisitos, o leitor deve sentir o estômago revirado.

Philip Roth disse que a literatura morreu. Qual é sua opinião?
Roth é um grande escritor. A contar com ele, a literatura não morrerá tão cedo. Publica um bom romance por ano. Não me parece que nem o romance nem ele pretendam interromper a carreira. (risos)

O senhor criou o suspense erudito. O modelo é ainda válido?
Em O nome da rosa, juntei erudição a romance de suspense. O livro ajudou a criar um tipo de literatura que vejo com bons olhos. Há muita coisa boa. Gosto de (Arturo) Pérez-Reverte, com suas fantasias que lembram as aventuras de Dumas, e Emilio Salgari, que eu lia quando menino.

Lendo seus seguidores, como Dan Brown, o senhor às vezes não se arrepende de ter criado o suspense erudito?
Às vezes, sim! (risos) Dan Brown me irrita porque parece um personagem inventado por mim. Em vez de compreender que as teorias conspiratórias são falsas, Brown as assume como verdadeiras, ficando ao lado do personagem, sem questionar nada. É o que faz em O código Da Vinci. É o mesmo contexto de O pêndulo de Foucault. Mas ele parece ter adotado a história para simplificá-la. Isso provoca ondas de mistificação. Há leitores que acreditam em tudo o que Dan Brown escreve – e não posso condená-los.



quinta-feira, 19 de setembro de 2013